terça-feira, 15 de setembro de 2020

Conselho


 

Na luta diária entre o bem e o mal

Escolha ser uma pessoa legal

A alma engrandece

E o mundo inteiro agradece

 

Em meio a tanto sofrimento

Tanta gente sem poder dar o último adeus

Muitos querendo mudar o momento

E você aí, brincando de Deus

 

Brigando, gritando, agredindo seu próximo

Com palavras cortantes e atitudes arrogantes

Se apegando a coisas irrelevantes

E fazendo mal ao mundo até com pensamentos tóxicos

 

Que ferem mais o coração do que você pode imaginar

Deixando feridas difíceis de cicatrizar

 

Por isso, um conselho eu te dou

Seja humilde e escute com atenção

Pois as melhores lições são dadas com o coração.

 

Não contamine o mundo com pensamentos negativos

Sorria sempre, todos os dias e até sem motivo

Porque o universo capta sua energia

Faça o bem sem olhar a quem

Emane vibrações positivas

 

O mundo pede ajuda

A natureza pede socorro

Seja aquele que vai fazer a diferença

Um salvador no meio do povo.

 

Então...

 

Espalhe amor pelo caminho

Pois ninguém é feliz sozinho

Seja luz na vida das pessoas que encontrar

Ilumine o caminho por onde passar.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

Desaceleração

 

Dia 99 da quarentena... ou quase isso.

Vallentina nem podia acreditar que sobrevivera até ali.

Nem nos seus sonhos mais criativos ela pensou ser possível uma realidade tão alucinante. Vira diversos filmes de ficção e em todos eles os cenários apocalípticos pareciam fáceis de viver. Zumbis eram mais fáceis de combater. Mas um inimigo invisível não; um vírus, muito menos.

Pela fresta da cortina entreaberta, ela viu que faltava pouco para o sol nascer e mais um dia começar. Mas, em mais um dia, a vida ainda estava fora do eixo. Estavam vivendo em quarentena.

Nem teve pressa para se levantar. Se fosse em outros tempos, já estaria de pé, caminhando para o banheiro para uma chuveirada rápida, antes de ir para o trabalho. Ultimamente estava acordando antes mesmo de o despertador tocar. Preferia assim, pois gostava de estar no controle. Assim, achava que ela controlava o tempo e não o contrário.

Doce engano... em um mundo globalizado, em pleno século XXI, praticamente toda a população mundial era controlada pelo senhor tempo. O mundo estava girando muito rápido. Parecia que a rotação estava acelerada. Ninguém tinha tempo sobrando para nada; cada fatia era contada e usada criteriosamente para coisas “importantes”.

Mas qual era a real importância das coisas? E das pessoas? Havia um relativismo neste quesito que ninguém tinha tempo para refletir, mas que era preciso fazê-lo. O que era importante para uma pessoa, poderia não ser importante para a outra. E assim girava o mundo. 

Com Vallentina isto não era muito diferente. O mundo exigia que assim o fosse. Agilidade, prazos, metas... exigências que ao longo do tempo foram deixando os humanos menos humanizados.

Apenas uma coisa era unanimidade entre as pessoas, mas poucos admitiam: a tecnologia, o dinheiro e o poder eram mais importantes que a natureza. Isto era fato!

Loucura, não é mesmo? Vallentina também achava. Já tinha alguns dias que ela vinha refletindo sobre tudo o que estava acontecendo no Planeta Terra.

Lembrou-se do primeiro noticiário a que assistiu, meses antes, com a manchete bombástica de que algo de terrível estava acontecendo do outro lado do oceano, em outro continente.

Uma luz vermelha de alerta acendeu dentro dela, apesar de as projeções feitas por especialistas garantirem que não chegaria até o Brasil. 

Ledo engano? Falsa notícia? Ou será que só não queriam apavorar a população?

Ela não sabia. Mas tivera a certeza que o mundo estava diante de algo muito maior que... que qualquer outra coisa por ela já vivida. COVID-19, nome estranho até para um vírus. Será que o poder de destruição dele seria mesmo tão poderoso? Não precisou de muito tempo para se demonstrar tal fato.

O engraçado é que ela dissera a um amigo, tempos antes de a pandemia começar, que achava que o mundo precisava desacelerar. Mas não imaginou que alguém já tinha puxado os freios do acelerador mundial.

Quem estava no controle? Ela não sabia dizer. Só sabia que o planeta mais parecia um trem desgovernado, sem maquinista. E que a velocidade estava no seu limite máximo quando, de repente, alguém foi até a sala de máquinas e acionou os freios de uma vez só. Mas... até que o trem parasse por completo e voltasse a andar na velocidade adequada, muito estrago já teria sido feito. E o que estava acontecendo no mundo não era muito diferente disto.

“Perdi as contas de quantas vezes surtei dentro de mim mesma nesse período, mas tá tudo bem”, pensou Vallentina enquanto espreguiçava calmamente.

Ela estava trabalhando em home office, o que permitia que ela fizesse seu próprio horário. Desde que ela batesse as metas do mês, estava tudo certo começar a trabalhar um dia ou outro às dez da manhã ou ficar um dia sem trabalhar e compensar no seguinte.

Ela tinha decidido viver um dia de cada vez. Mesmo fragilizada, cansada, preocupada e reflexiva, ela estava certa de que estava se transformando profundamente. Pelo menos ela estava tentando.

O que as pessoas mais reclamavam atualmente era que não tinham tempo. E aí veio um vírus e obrigou o mundo a reduzir a carga horária, a pressão, a correria e a pressa do dia a dia. De repente, o tempo apareceu. Mas as pessoas estavam presas em seus lares, sem poderem usufruir desse tempo com liberdade. Louco, né...

A forma como o ser humano estava vivendo até o ano de 2019 foi questionada e todos foram obrigados a lidar com um inimigo desconhecido. Como é que se luta contra algo ou alguém que você não vê? 

E a humanidade começou a batalha perdendo seus soldados mais experientes, que já tinham lutado outras guerras. E todo este cenário era apavorante.

Vallentina sabia que não podia desistir. Ainda tinha muitas coisas para realizar neste mundo e não podia protelar algumas decisões e atitudes.

“O que eu posso fazer a partir de agora que antes eu não fazia?”

Esta era uma das perguntas que mais martelava na mente dela. Ela sabia que precisava mudar, precisava melhorar. Não seu rendimento ou produtividade, mas melhorar como pessoa, como ser humano.

Precisava rever hábitos, rever as relações com as pessoas, com a natureza...

Era notório que a natureza vinha se recuperando e se regenerando só pelo fato de o ser humano ter recuado, ter diminuído sua intensidade de interação social.

Agora, mais do que nunca, pensar no coletivo, era primordial. E ela estava lutando fervorosamente para conseguir. Falhava, muitas vezes, mas só o fato de tentar diariamente já a colocava em vantagem sobre aqueles que nem estavam tentando.

“Eu sei que vai passar. Não ouso dizer quando, pois não cabe a mim definir. Mas sei que vai passar.”

Naquele dia, enquanto tomava seu café, ligou um pouco a TV. Tinha perdido este hábito, já que mais se ouvia sobre tragédias do que coisas boas. Estava cansado disto. Se metade da população mundial não se contaminasse, de fato, pelo vírus, contaminar-se-ia só de ver e ouvir os noticiários televisivos. Era algo tóxico. Mas, mesmo assim, naquele dia, ela ligara na expectativa de ver outra coisa que não fosse sobre a pandemia mundial. Mas não adiantou.

“Meus netos vão estudar um dia sobre isso e vão me perguntar o que realmente aconteceu, como foi viver nesta época. Assim como hoje eu me pergunto como foi sobreviver à grande gripe espanhola no início do século XX.”

Desligou a TV e preferiu se exercitar um pouco. Decidira que tiraria o dia de folga. Estava com os relatórios adiantados, o que lhe permitiria relaxar um pouco mais naquela quinta-feira.

O apartamento era pequeno, mas se tinha um ambiente espaçoso e que era um dos preferidos de Vallentina era a sala. Assim que conseguiu comprar o imóvel, ela derrubou a parede que dividia a sala da varanda e fez um ambiente só. Com isso, ela conseguiu colocar uma esteira num cantinho para se exercitar e uma espreguiçadeira para tomar sol. Suas orquídeas ocupavam o outro lado da varanda. Ela amava plantas.

Foram quase uma hora e meia entre exercícios e exposição ao sol da manhã. Até a hora do almoço, Vallentina já tinha respondido algumas mensagens da empresa, colocado o lixo para fora, se exercitado, aguado as plantas e arrumado a casa. 

Relaxar, para ela, não era sinônimo de ficar à toa.

Enquanto preparava seu almoço colocou uma música. Ao som de hits dos anos 80 que ela tanto amava, escolhera preparar um espaguete à carbonara, receita de seus antepassados.

Morar sozinha tinha lá seus prós e contras... Cozinhar não era seu forte, mas até isto ela estava tentando melhorar. Antes, quando ficava com preguiça, comia qualquer coisa que estivesse à mão ou que fosse fácil e rápido de preparar. Isto quando não comprava pronto.

Vallentina, dentro do possível, estava gostando daquela pausa na sua vida. Estava tendo tempo para si mesma.

Na parte da tarde, assistiu a um filme. Tinha pensado em ir ao supermercado, mas estava desanimada. Pensou em organizar algumas gavetas. Precisava também lavar a cozinha, mas decidiu que tudo isto poderia esperar mais um ou dois dias. Não era algo essencial ou urgente. 

Lembrou-se de uma caixa que recebera de sua tia semanas atrás e que não tivera tempo de olhar. Segunda a tia, eram só quinquilharias de antigamente. Foi busca-la para, enfim, descobrir o que havia dentro dela. Agora teria tempo.

Foi até a sala e sentou-se em sua poltrona predileta, colocando a caixa ao lado. Parecia que seria, aquele dia, um bom dia para recordações. Antes de desvendar quais tesouros a caixa continha, respirou fundo e alisou o braço da poltrona. Fora de sua avó, sua nona, como ela mesma a chamou a vida inteira. Conseguira reformá-la poucos meses antes. Trocou o estofado, envernizou, mas manteve a mesma cor carmim. Queria sentir o mesmo aconchego de quando era menina e via sua avó lendo sentada nela. Gostava de ficar por perto, passava as mãos nas franjinhas que pendiam de sua lateral e sempre que sua avó não estava por perto, corria e sentava-se nela. 

Agora a poltrona era dela, herança da avó. Depois que sua nona havia partido, quando os filhos e netos foram repartir seus pertences, houve muita briga pelas joias, porcelanas, quadros e móveis. Ela nem quis saber de mais nada, só se importava com a poltrona. Ainda teve primo seu que tentou ficar com ela, mas Vallentina bateu o pé e não abriu mão da única coisa que ela queria da avó, a não ser ter a avó novamente por perto por um minuto que fosse.

E ali estava ela, aconchegada naquela poltrona, com a caixa aos seus pés. Assim que ela retirou a tampa soube que muitas lembranças viriam na memória e que realmente eram tesouros valiosos para ela. Para outros, provavelmente não: revistas da década de 70, bibelôs de sua mãe, cartas trocadas por seus pais, uma boneca sua, o livro de receitas da nona mais algumas coisas.

Folheou sem muito interesse, de início, a revista que estava mais na superfície. De repente algo chamou sua atenção. Era o anúncio de uma máquina de escrever elétrica Olivetti. A máquina que sua mãe sempre desejou ter. Por muitos anos tentou juntar dinheiro, trabalhou duro e quando finalmente conseguiu comprá-la, ficou quase uma semana sem dormir direito de tanta felicidade contemplando aquela preciosidade na estante de seu quarto. Em outras épocas, a definição de felicidade era diferente. As conquistas soavam diferentes. Na verdade, o mundo funcionava de maneira diferente, numa rotação mais lenta. 

Havia-se tempo para tudo, o relógio girava mais devagar.

Dava-se mais valor para certas conquistas, certos esforços que nos tempos atuais seriam considerados banais.

Vallentina olhou para o canto direito da sala e observou a máquina de escrever com o coração cheio de felicidade. Ela guardava com todo o cuidado e carinho o que um dia sua mãe comprou com tanta luta.

Que tempos! 

Olhou novamente dentro da caixa e viu as cartas... cartas!

Quem, em plena século XXI trocava cartas com seus pretendentes? Quem tinha tempo ou paciência para esperar a resposta de um pedido de namoro? A agilidade das conquistas amorosas modernas faziam com que todo o charme e expectativa fossem reduzidos a pó. Antigamente era algo mais lento, como demorava! Uma paquera poderia demorar semanas, meses! Quando não demorava anos... 

Vallentina lembrou-se de sua mãe contar como era boa a sensação do coração acelerar quando se recebia uma carta do seu pai. Ou quando as mãos se tocaram pela primeira vez... a magia dos olhares se cruzando...

Ahhhh, como parecia ser melhor do que uma simples mensagem visualizada ou um emotion trocado. Ela via nos filmes antigos, lia nos livros de época. Como tudo parecia ser mais gostoso!

Ela, uma romântica incorrigível, queria viver tudo aquilo ainda. Mas como? Onde encontrar alguém que não tivesse pressa para ir para a cama no primeiro ou segundo encontro?

Ela não sabia responder...

“Queria voltar no tempo e viver esta magia toda de antigamente...”

Remexeu mais na caixa e cada item retirado fazia com que ela se lembrasse de dias que não voltariam mais. De pessoas que não estavam mais por perto. Umas tinham ido embora para sempre, outras, quem sabe um dia voltaria a ver?...

Aquelas lembranças estavam a fazendo ficar cada vez mais nostálgica. E quando retirou da caixa a boneca de pano lembrou-se de sua irmã, Ellena. Elas não se viam ou se falavam há muitos anos. Tudo culpa de uma antiga vizinha da casa de seus pais, cuja fofoca fora tão bem espalhada que conseguiu separar duas irmãs que se amavam muito.

Passados alguns anos desde o rompimento das irmãs, Vallentina soube da verdadeira história e quis ir tirar satisfações com a fofoqueira, mas soube que ela havia falecido. Nem se comoveu com a notícia. E tentou não emitir nenhum pensamento ou sentimento de “bem feito”, já que a jararaca tinha feito muito mal a outras pessoas também.

Mas, mesmo depois de esclarecidos os fatos, Vallentina não teve coragem de ligar para sua irmã. Ellena mudou-se para Portugal e elas nunca mais se falaram. Nem por telefone nem por mensagem. Vallentina sentia um buraco em seu coração, mas a correria da vida sempre a fazia deixar para depois uma possível tentativa de conciliação. Não saberia como fazer o primeiro contato, apesar de ter o número de telefone da caçula gravado na agenda de seu celular.

Estar ali, naquele momento, com tantas lembranças permeando seus pensamentos, a vontade de ouvir a voz de sua única irmã tornou-se quase insuportável. Vallentina chegou a pegar o celular e desbloquear a tela inicial, mas logo desistiu e o largou de volta na mesinha ao lado da poltrona. Pegou a boneca e a abraçou forte.

“O que vou dizer?”

“Aposto que ela nem vai me atender.”

“Ela vai desligar na minha cara.”

“E se eu mandar uma mensagem?”

“Mas se eu mandar uma mensagem e ela visualizar e não responder, vou me sentir péssima.”

“Tantos anos longe... por que querer mudar as coisas?...”

Tantas perguntas atropelando-se na mente de Vallentina... e todas elas escondiam um único sentimento: o medo. Medo da rejeição, medo da irmã não perdoá-la por ter acreditado em fofocas...

“Mas foi uma armação tão bem feita que qualquer um acreditaria”, tentou se justificar para si mesma.

Pegou novamente o celular e por alguns minutos ficou com o aparelho na mão. Digitou o nome dela e quando os dados do contato apareceram ficou olhando para a foto da irmã na tela. Tocou carinhosamente a face que era tão parecida com a sua própria e, sem querer, o dedo indicador esbarrou no botão de ligar. Vallentina congelou!

E agora, o que ela iria fazer? Já estava chamando...

Ela não teve reação alguma a não ser continuar olhando para o telefone em suas mãos. Seu coração batia descompassadamente e ela sentiu o rosto arder; provavelmente estava corando.

Após alguns segundos o telefone parou de chamar e apagou. Só aí que Vallentina soltou o ar que prendia nos pulmões. Sentiu um alívio tão grande, mas, ao mesmo tempo, uma dor que não esperava sentir.

“Por que será que ela não atendeu?”

“Será que não quis?”

“Será que não estava próxima ao aparelho?”

É... pelo menos ela tinha tentando. Mesmo que sem querer, ela tentou.

Talvez o destino não quisesse que elas voltassem a se falar. Talvez, nem a quarentena iria fazer elas se reconciliarem.

Ter essa consciência a fez ficar ainda mais pensativa e introspectiva.

“Tem coisas que não são para acontec...”

E antes mesmo dela completar o pensamento, a tela de seu celular se iluminou e o rosto de Ellena apareceu no visor. Vallentina sentiu um arrepio que percorreu seu corpo de cima a baixo. Como se uma descarga elétrica tivesse atingido sua mão, ela largou o celular em seu colo e ficou olhando aquele retangular que vibrava sobre suas pernas.

Quatro segundo se passaram, três toques soaram e aí então, como se atraída por um campo eletromagnético, a mãe direita de Vallentina pegou o telefone e deslizou o dedo sobre o botão verde para o lado.

Instintivamente ela levou o aparelho até seu ouvido, mas não falou nada. Sua voz não saía. Era como se suas cordas vocais tivessem dado um nó, impedindo-a de emitir um mísero som.

Do outro lado da linha um silêncio pesado também permaneceu. 

Vallentina não esperava que a irmã atendesse quando ela ligou, muito menos imaginou que ela retornaria a ligação.

“E agora, o que eu digo?”

“Eu tenho que falar primeiro?”

“Espero ela falar ou desligo?”

Mas antes que mais e mais questionamentos atrapalhassem a obra do destino – se é que o acaso existe – Vallentina escutou aquela voz que ela queria ter ouvido muito anos antes:

– Oi.

Uma emoção tão grande tomou conta de Vallentina... suas pernas tremiam ininterruptamente e ela começou a suar, apesar do clima frio do mês de Junho. Ela abriu a boca, mas não conseguiu dizer uma única palavra.

– Você me ligou? – perguntou Ellena.

E foi então que Vallentina percebeu o tom de voz da irmã. Não tinha raiva, nem ódio. Pelo contrário, continuava aquele timbre doce e melodioso. E tinha carinho também. 

A saudade, então, a acertou em cheio e seus olhos transbordaram todo o amor que estava guardado por todos aqueles anos. Pela face, rolaram lágrimas e mais lágrimas silenciosas.

– Tina, você está aí? – perguntou a irmã um pouco angustiada.

Vallentina sabia que precisava responder Ellena. Não podia perder aquela oportunidade que o Universo estava lhe dando. Não podia deixar que sua ela pensasse que não queria conversar.

Reunindo todas as forças e todo amor que existiam dentro de si, Vallentina respirou fundo e disse um tímido:

– Oi.

Isso mesmo, ela só conseguiu inicialmente formular uma única palavra, duas letras que diziam muita coisa. Naquele momento, era uma ponte que unia dois continentes. Algo que se sobrepunha a um enorme oceano e conectava duas irmãs que se amavam e que por um capricho do destino não se falavam há anos.

– Oi Lena. Quanto tempo...

– Muito mesmo...

Vallentina sabia que era ela que precisava dar o primeiro e o segundo passo. Talvez até o terceiro... Naquele momento não cabia orgulho em sua fala. Ou qualquer outro sentimento que não fosse o amor.

– Minha irmã, faz muito tempo que eu queria te ligar. Há tanto para se falar, tanta coisa que eu explic...

Ellena interrompeu a irmã mais velha. Precisava mostrar a ela que não queria ouvir desculpas ou nada referente ao passado. Só queria ter a certeza que elas ainda eram as irmãs “LL” e que o fio que as ligavam não tinha sido rompido.

– Tina, eu só quero saber como você está, o que tem feito – disse a caçula. – E, o mais importante: quero que saiba que espero por esse telefonema há muito tempo... 

As lágrimas que já estavam escorrendo pela face de Vallentina agora desciam num fluxo e velocidade alarmante. Era ela que deveria estar falando, ensaiara por diversas vezes como seria essa primeira conversa, mas nada do que ela pensou em dizer saía de sua boca. Toda aquela explicação que ela sentia que precisava dar à irmã e que pesou seu coração por anos, agora era irrelevante.

– Vallentina, estou sentindo tanta saudades de você, minha irmã, que eu mesma pensei várias vezes em lhe telefonar.

E aquelas palavras de Ellena foram como um abraço. Um abraço apertado que fez Vallentina soluçar alto.

– Não chore, Tina, não chore. Está tudo bem... – consolou a irmã.

A maturidade de Ellena surpreendeu Vallentina. E a encheu de orgulho também. Sempre pensou nela como uma menina mimada e imatura, mas era só um retrato que pintaram dela e agora Vallentina via que não fazia jus ao seu verdadeiro perfil.

Aos poucos, Vallentina foi se acalmando e, entre uma respirada funda e outra, conseguiu controlar sua respiração. A manga de seu cardigã ficou ensopada pelas lágrimas quentes que insistiam em extravasar de seus olhos. 

Começou a conversar com a irmã e algumas horas depois foi como se o tempo tivesse retrocedido e elas não tivessem tido nem um minuto sequer de distância temporal entre elas.

Conversaram sobre a vida, a família, o trabalho e como estavam lidando com aquela situação da quarentena. Ellena contou-lhe sobre seu novo namorado e a casa que acabara de comprar em Lisboa. Estava orgulhosa de ter adquirido um imóvel tão bom e tão bem localizado por um valor inferior ao que ele realmente valia. Foi um achado!

Vallentina falou por horas e horas também e, se antes a saudade apertava, agora ela estava esmagando-as. Justamente por não poderem se ver devido a este isolamento social tão rigoroso que a situação de pandemia exigia, é que o desejo de estarem juntas estava em níveis elevadíssimos!

Por diversas vezes, durante os anos que estiveram separadas, Vallentina pesquisou pacotes de viagens para a Europa, mais especificamente, para Portugal. Sempre com a “desculpa” de que sempre tivera o sonho de conhecer o velho continente. Mas o real motivo era estar perto de Ellena, ir até seu encontro.

Agora, fizeram planos de se verem logo que tudo isso acabasse. Parecia que criar esse compromisso entre elas afastou o medo de nunca mais se verem. Ellena pediu que a irmã lhe prometesse que nunca mais se afastaria, que nunca mais deixaria de lhe telefonar.

– Eu prometo, Lena. Prometo estar presente, física, virtual e espiritualmente em cada momento de sua vida a partir de hoje. Em pensamento, eu sempre estive – ela confessou. – Mas a partir de hoje, e assim que essa pandemia passar, eu prometo estar mais próxima de você. Nunca mais te abandonar.

E por mais alguns minutos elas ficaram fazendo planos que pretendiam colocar em prática num tempo muito breve. 

A despedida foi difícil. Nenhuma das duas queria desligar. E combinaram de desligarem juntas, como se fossem crianças ou namorados apaixonados que protelam o momento da despedida. Entre risadas e choro – agora de alegria – o botão foi acionado ao mesmo tempo no Brasil e em Portugal e a linha voltou a ficar muda.

Por alguns minutos que mais pareceram horas, Vallentina ficou em silêncio, olhando para o telefone em suas mãos. Um sorriso alegre insistia em permanecer em seu rosto. Era um sorriso que ia dos lábios até seus olhos ainda molhados.

Tantos pensamentos permeavam a mente dela naquele momento... 

Mas o principal sentimento que tomou conta de seu coração foi gratidão. Ela estava grata por ter tido tempo de se reconciliar com sua irmã. Mesmo que à distância, por enquanto. Se tinha algo que essa pandemia tinha feito em Vallentina era deixá-la mais consciente da brevidade da vida. Ela viu amigos e vizinhos perderem entes queridos para o vírus. Assim, de uma hora para outra, sem muita explicação ou motivos. O covid-19 não escolhia por raça ou cor, ou por condição social. Talvez por condição moral, vai saber...

E quando a morte chegou para essas pessoas, a rotina mudava drasticamente. E só aí que se percebia que a rotina era algo mágico. Sabendo vivê-la, a rotina era maravilhosa. Porque ela te dava a certeza de que as coisas não iriam te surpreender negativamente ou fazer seu mundo virar de cabeça para baixo.

Certo dia viu a vizinha sair de sua casa aos prantos, gritando que seu marido estava sentindo-se muito mal e que precisava de ajuda. Como ajudar alguém com suspeita de estar infectado com uma doença contagiosa? Ninguém ao redor pode fazer muita coisa, a não ser pedir que ela se acalmasse enquanto esperava o socorro médico chegar. 

Nos dias subsequentes Vallentina viu o movimento de ir e vir na casa amarela ao lado da sua e quando veio a notícia da morte daquele homem, viu a rotina daquela família se alterar significativamente. Os horários se alteraram, ele agora não chegava mais do trabalho, por mais que ela ficasse na varanda esperando. As refeições, agora, a vizinha fazia sozinha e até cuidar do jardim – que ambos faziam juntos – ela teria que fazer só.

Rotina... para uns, algo tão ruim, tão monótono e até certo ponto prejudicial. Para outros, tão precioso, dependendo do ponto de vista que se olhava. E esta realidade era algo que Vallentina não tinha tido consciência até a pandemia fazer a rotação natural da vida mudar. Mas era algo que agora ela valorizava imensamente.

“Esta seria a nova realidade?”

“Como vai ser o novo normal?”

“O ser humano vai ter que usar máscaras para sempre?” 

“E os abraços, até quando serão proibidos?”

Tantas perguntas... se as pessoas mal sabiam sorrir sem máscaras, como iriam sorrir com elas? Agora, mais do que nunca, era preciso sorrir com os olhos, já que os olhos são a porta da alma. E os abraços, o alimento.

O mundo fez os seres humanos fazerem uma pausa forçada em suas vidas. 

“O que era preciso entender com esta situação?”

“O que os seres humanos precisavam entender, que em mais de dois mil anos ainda não tinham entendido?”

Estava claro, como a água cristalina, que era preciso assimilar o recado do Universo.

A vida estava dando mais uma oportunidade de as pessoas enxergarem o que era realmente importante. Aproveitar o momento de reflexão para priorizar as pessoas, coisas e situações da vida. 

Vallentina estava imensamente feliz por ter dado um passo importante na sua vida com relação à sua irmã. Sabia que, de uma maneira ou de outra, sairia um ser humano melhor desta situação toda. 

Escutou uma buzina na rua e se levantou para ver o que estava acontecendo. Sua rua nem era muito movimentada, então, qualquer anormalidade no trânsito, todos os vizinhos iam até a janela ou a varanda ver a fonte do barulho. Como estava frio, nem abriu a porta da varanda, mas conseguiu ver, pelo vidro que um cachorro atravessara na frente de um carro. Nada demais.

Aproveitou que tinha levantado e foi até a cozinha preparar algo para comer. Abriu todos os armários e a geladeira, mas não encontrou nada que fosse o que ela queria comer naquele momento. Ela queria algo gostoso, que alimentasse também sua alma.

“Preciso ir ao supermercado amanhã comprar algumas coisas...”

Lembrou que ainda tinha uma garrafa de vinho tinto que ganhara de sua melhor amiga, na última viagem dela à Argentina. Decidiu abri-la, já que tinha algo a comemorar. Para acompanhar, queria algo verdadeiramente gostoso, que fosse como as famosas comidinhas “confort food”. Ela tinha escutado este termo um dia na fila do supermercado e deu total razão à moça que explicava o que significava.

– São aquelas que alimentam o estômago e a alma. Que parecem te abraçar de tão gostosas.

Para Vallentina, pizza era algo que se encaixava perfeitamente nesta definição. E ela decidiu que combinava bem com vinho, com comemorações, com livros, com... com tudo! Pizza, para ela, era sinônimo de vida!

Já eram quase sete horas da noite e ela ainda não tinha tomado banho. Vallentina pôs, então, o vinho para gelar e resolveu tomar um a ducha. Quando terminasse, pediria a pizza em sua tratoria preferida. Já que não poderia ir até lá, pediria pelo aplicativo, já que eles também tiveram a rotina alterada e precisaram se adaptar a essa nova realidade. Modernizar o negócio familiar e super tradicional foi algo inevitável para que eles se mantivessem no mercado. Neste ponto Vallentina nem achou a mudança tão ruim assim, já que delivery agora era uma das palavras mais usadas no mundo pós pandemia.

O banho daquela noite lavou mais do que o corpo de Vallentina. Lavou também sua alma e ela sentiu-se extremamente mais leve desde a conversa com Ellena. 

“Por que esperei tanto tempo, meu Deus?”

“Por que as pessoas insistem em deixar mágoas e desentendimentos afetarem tanto suas vidas?”

“Por que eu deixei?”

Ela não queria deixar que os muitos porquês continuassem pesando em suas costas e demorou um pouco mais no banho. Observou a água escorrer pelo seu corpo, pelo chão e ir até o ralo, numa correnteza sem possibilidade de volta. A água só podia ir. E percebeu que era assim com a maioria das situações que acontecem com as pessoas. Não se pode voltar no tempo e fazer diferente; o tempo não para. O máximo que o universo permitia, era uma desaceleração, como o que estava acontecendo atualmente.  Era como se fechasse o ralo da vida e a água empossasse por um tempo. Ela ficaria ali, rodando de um lado para o outro, num redemoinho sem fim, acumulando mais e mais água, até que, ou transbordaria ou o ralo seria aberto novamente por alguém e o fluxo seguiria seu ritmo novamente, como tinha que ser.

Vallentina riu de si mesma quando se deu conta que estava realmente pensativa.

“Estou refletindo sobre a água que sai pelo ralo do banheiro... como mudei... Acho que posso até escrever um livro!”

Quando terminou o banho, parecia que o mundo era outro, estava diferente. Fazia tempos que não tomava um banho demorado. Sempre era tão rápido, estava sempre com tanta pressa para ir a algum lugar ou para fazer alguma coisa.

Ela se olhou no espelho e se contemplou por alguns minutos. 

“Já tive medo de envelhecer. Hoje aceito o inevitável e aproveito o que é possível.”

“Mudei tanto em poucos dias... Acho que esta pandemia serviu para isto também, as pessoas crescerem como seres humanos. A vida estava nos dando uma nova chance, uma oportunidade incrível de se olhar com mais calma, para si mesmo, para todos os lados e para todas as coisas e pessoas. Quem permanecesse o mesmo no meio disso tudo ou está distraído ou ainda não entendeu qual o propósito de vida nesta existência. Vai precisar voltar algumas vezes mais para continuar evoluindo.”

Vallentina até tinha medo de saber por mais quanto tempo ainda duraria todo este cenário caótico. Mas sabia que não adiantava muito ficar imaginando o que seria do amanhã; mais do que nunca, ela percebeu que era preciso viver o hoje.

Ela secou-se com calma, passou cremes que antes não usava. Penteou o cabelo também com calma. Olhou-se verdadeiramente pelo espelho. Esticou a mão e tocou a superfície fria onde seu rosto – agora sereno – estava refletido.

“Esta é a primeira vez que minha geração está vivendo algo deste tipo, desta magnitude. E, lógico, não estava preparada. Quem é que, em sã consciência, estava preparado? Uma geração acostumada a viver a realidade virtual, onde a vida acontece de mentira e superficialmente; acostumada a ver o mundo através de uma tela e o contato ser touch.”

Faltava empatia no mundo, ela sabia, e sobrava egoísmo. A pandemia serviu para muitas pessoas praticarem mais gentilezas – até então não praticadas. Serviu para entender que cada pessoa tinha seu tempo, sua trajetória e história.

Em diferentes proporções haveria mudanças significativas no mundo, na mentalidade, na maneira do consumo.

O desmoronamento da ordem social trouxera à tona o melhor e o pior da humanidade. E foi no colapso que se conheceu a verdadeira face do outro – monstros ou anjos. O caos deixou o ser humano nu, expôs-lhe a alma.

Até pouco tempo era normal o ritmo acelerado, a vida apressada. E Vallentina era uma das pessoas que estava inserida neste ritmo alucinante. O seu reflexo no espelho demonstrava isso: as olheiras que ainda insistiam em permanecer ali eram um sinal de cansaço físico e mental. Mas ela percebeu que o normal estava errado, que a rotação humana estava acelerada demais. E decidiu que nunca mais se esqueceria de como a vida realmente deve caminhar: a passos largos, porém, um de cada vez, resolutos, mas um de cada vez.

Esse seria seu novo normal...

Após se vestir, foi até a sala cantarolando uma música que sua mãe gostava muito e que cantarolava para ela enquanto penteava seus cabelos, quando Vallentina ainda tinha seus nove ou dez anos de idade.

Foi até o celular a fim de abrir o aplicativo de músicas e escutá-la. Estava mais nostálgica do que nunca. Sentia falta da irmã, sentia saudade dos pais que não estavam mais vivos... queria poder senti-los mais próximos e a música sempre proporcionou isto a ela. Colocou a música para repetir mais de uma vez.

Se havia comidas que são como abraços, as músicas eram como carinhos.

Enquanto a música preenchia o ambiente com seus acordes doces e suaves, Vallentina aproveitou para pedir a pizza. Meia marguerita e meia pepperoni, seus sabores prediletos. Sabia que uma pizza inteira era muito para ela sozinha, mas se tinha uma coisa que ela adorava era acordar no dia seguinte e comer pizza do dia anterior no café da manhã. Não tinha coisa melhor para ela! Então, uma pizza tamanho família era mais do que suficiente.

Cinquenta minutos foi o prazo que deram a ela para realizarem a entrega. Ao som daquela música que acarinhava seus ouvidos, com a garrafa de vinho numa mão e a taça na outra, Vallentina voltou para a sala e se acomodou na poltrona novamente. Chegou a pegar o livro que estava na mesinha ao lado. Queria retomar a leitura que iniciara no início da quarentena, mas o romance não era tão empolgante como outros que já lera e preferiu fechar os olhos e se entregar à melodia. A caixa continuava ali, ao lado, como que para fazê-la se sentir perto da família novamente. A boneca se transformaria em uma novo item de decoração de sua sala.

Vallentina foi relaxando, relaxando, até que não demorou muito e já tinha adormecido. Fazia tempos que não pegava no sono com tanta facilidade. O corpo poderia nem estar tão bem acomodado e confortável como se ela estivesse em uma cama, mas a alma estava feliz e os pensamentos leves. Entre um suspiro e outro, quem chegasse perto veria que ela estava num sono profundo e tranquilo, o que a possibilitou sonhar.

Vallentina estava numa fazenda e era verão. Ela sabia disto porque o sol estava aquecendo sua pele e o vento soprava suave. Ela estava deitada num gramado que se estendia até longe de onde seus olhos pudessem ver. O som do canto dos pássaros misturava-se com a melodia da música que sua mãe mais gostava. No ar, ela podia sentir o cheiro de café fresco e da broa de milho que sua avó fazia.

Vallentina, então, sentou-se e olhou em volta. Viu um misto de cores e texturas que encheram seus olhos de alegria. Era ali que ela e a irmã passaram suas melhores férias, na infância. Relembrou sensações e sentimentos, como se estivesse sentindo novamente. O que estava acontecendo com ela?

Olhou para si mesma e viu que vestia seu vestido preferido, verde, com flores coloridas na barra. Ela levantou-se devagar e percebeu que seus cabelos iam até metade de suas costas, como quando ainda era uma menina. 

– Tina, venha tomar café! – ouviu sua mãe chamando. – Sua nona fez broa de milho.

Sem pensar muito, Vallentina saiu correndo em direção à casa da fazenda. Enquanto corria, sentia uma alegria imensa. Começou sorrindo, depois gargalhando. Chegou à porta da cozinha quase sem fôlego. Sua mãe a aguardava de braços abertos embaixo do portal de entrada. Estava radiante!

Vallentina foi até ao encontro dela e a abraçou com força. Fechou os olhos e sentiu aquele perfume doce de sua mãe que ela tanto amava. Que sensação maravilhosa! Era tão acolhedor e aconchegante quanto ela lembrava.

– Estou tão feliz por você e sua irmã estarem conversando novamente. Ellena sentiu muito sua falta.

Ao mesmo tempo em que Vallentina queria explicar para sua mãe tudo o que havia acontecido, não queria falar, apenas escutá-la. E foi o que fez.

– Você sabe que estou sempre por perto, não sabe?

Ainda nos braços da mãe, ela assentiu com a cabeça.

– Pode ter certeza que você nunca esteve sozinha. E nunca estará.

Vallentina apertou mais o abraço. Não queria sair dali.

De repente um barulho ficou mais alto que o canto dos pássaros e da música predileta de sua mãe. 

“Mas que som era aquele? Parecia um apito...” 

O abraço durou mais alguns segundos e Vallentina se recusava a sair daquele que era seu lugar preferido no mundo. O barulho continuou.

– Vamos, Tina, está na hora. Vá comer a sua pizza.

Pizza? Mas a avó tinha feito broa... por que sua mãe falou em pizza? E por que aquele barulho não parava? Era um apito? Vallentina não conseguia entender.

– Vá, minha filha, pode ir tranquila, que daqui onde estou, vejo tudo e tenho muito orgulho da mulher que você se tornou.

Aquelas palavras encheram Vallentina de contentamento. Ela não pode conter a emoção e uma lágrima teimosa escapou de seus olhos.

O barulho agora estava mais nítido. Não era apito. Era a campainha.

Vallentina abriu os olhos e, de repente, sua mãe tinha sumido, ali não era mais a fazenda e ela estava na sala de sua casa. Nem tinha percebido, mas dormira na poltrona enquanto ouvia a música. 

Mais uma vez a campainha tocou e Vallentina voltou de vez para a realidade. Levantou meio cambaleando e foi até o canto da sala atender o interfone. Era o entregador de pizza.

Ela destravou o portão para que ele entrasse e dirigiu-se para a porta. Quando olhou o molho de chaves em cima do aparador, viu também a máscara de proteção que deixava ali para não se esquecer de usar quando fosse à rua.

E foi aí que a realidade voltou com força total e ela se lembrou: o mundo estava de quarentena.

Essa era a nova realidade.

Enquanto pegava a pizza com o entregador lembrou-se nitidamente do sonho. E sorriu. O entregador estava com um semblante cansado, mas sorriu de volta e desejou-lhe boa noite.

Ao fechar a porta lembrou-se das palavras de sua mãe:

“Tenho muito orgulho da mulher que você se tornou.”

É... ela estava tentando e saber que sua mãe estava orgulhosa, fazia tudo valer a pena.

Levou a pizza até a mesa e antes de começar a comer voltou à sala e pegou seu celular. Fazia tempos que não postava nada em suas redes sociais. Não queria fazer nenhum post vazio. Mas, naquela noite, ela soube exatamente o que publicar:


“As lições aprendidas na dor jamais serão esquecidas.

Em tempos de pandemia,

Aos que não estão conseguindo fazer muita coisa, não se desesperem!

Aos que conseguem fazer tudo: parabéns!

Aos que estão se esforçando: por favor, continuem!

E a todos: sejam pacientes com todas as pessoas e com todos os processos.

Vai passar.


E como já dizia o poeta: 

Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, 

Até quando o corpo pede um pouco mais de calma

A vida não para.”


Vallentina Bondi

sábado, 6 de outubro de 2018

FINAL DE CAMPEONATO

Era primavera.
E de 4 em 4 anos acontecia na floresta uma corrida. Podia participar qualquer bicho, dos maiores aos menores, mesmo os que não tinham preparo algum. O sistema era bem democrático. Alguns animais, durante o intervalo de uma edição para outra, preparavam-se. Já outros, nem sinal de vida davam. Mas reapareciam bem na época da corrida prometendo mundos e fundos.
A corrida acontecia em várias etapas e em cada uma delas era feita uma peneira e aos poucos iam sendo eliminados os retardatários. Ao final, só restavam quatro equipes que podiam concorrer ao título. Cada time era representado por uma bandeira.
Naquele ano, os que ainda tinham chances de competir na grande final eram os times Azul escuro, Vermelho sangue, Laranja aguada e Verde exército. Cada equipe era composta por seus jogadores e um técnico.
A equipe laranja pela primeira vez participava da competição. A hiena, a minhoca, o canguru e o jabuti representavam este time. Ainda estavam meio perdidos no esquema... não sabiam como agir ao certo, se precisavam se aquecer antes, ou se já deveriam sair correndo. Até tinham potencial para ganhar o campeonato, mas não tiveram tempo de se prepararem. Talvez na edição seguinte, quem sabe, poderiam se destacar mais entre os primeiro colocados.
A equipe azul era composta pelo tucano, bicho-preguiça, pelicano e pelo papagaio. Eles sabiam que o time estava fraco, que não tinham condições de ganhar – mais uma vez – mas mesmo assim não “largavam o osso” (até parecia que o cachorro fazia parte deste grupo). O papagaio, então, ficava repetindo e repetindo impropérios contra os adversários, na tentativa de diminuí-los. Estratégia que se mostrou totalmente ineficiente.
Assim como em qualquer campeonato, a presença de competidores desleais também se fazia presente nesta corrida. Era possível ver seres corruptos e inescrupulosos, dispostos a fazerem de tudo para prejudicar o adversário, competindo com um sorriso no rosto e a cara mais lavada do mundo. Uma pena.... Há anos os honestos vinham tentando desmascará-los. A torcida já tinha percebido que muitos dos resultados passados não tinham sido totalmente corretos. Por isso, estava polvorosa nas arquibancadas, atenta a qualquer atitude suspeita e resultado fraudulento.
A equipe vermelha, por exemplo, tinha ganhado os últimos quatro campeonatos. De maneira suspeita, diga-se de passagem. Na última edição da corrida, inclusive, o título foi retirado das mãos da anta por suspeitas de fraude nos resultados.
Para esta edição da competição, a equipe era composta pela anta (ela não desistia...), o jumento, o lobo – com sua vestimenta de pele de cordeiro – e a cobra. O técnico da equipe vermelha era o morcego. Sabe-se lá porque o escolheram, já que ele estava preso na caverna e não podia sair durante o dia para acompanhar a competição. Sempre que seus pupilos precisavam de orientação tinham que ir até aquela “prisão” para escutar o que o chefe iria mandar fazer.
Liderando todas as etapas da competição e a preferência da torcida estava a equipe Verde. Também era a primeira vez que este time participava do campeonato nacional. Seus competidores eram a águia, o cachorro, o leão e o coelho. Rápidos nas provas, não respondiam às provocações dos adversários com ofensas, eram leais nas disputas e tinham tudo para levantar a taça.
O problema era que nem tudo eram flores e já tinham tentado sabotar a equipe que liderava o ranking.
Uma das competidoras – a águia – quase morreu em uma das etapas. Fora atingida por uma árvore cheia de espinhos venenosos quando comemorava com os torcedores a vitória de uma das fases. Ela estava sendo carregada nos braços por seus fãs quando foi atingida no abdômen. A equipe da polícia da floresta logo instaurou inquérito para apurar o atentado, já que árvores espinhentas nem existiam naquele lugar.
Depois do atentado a coisa ficou mais séria.
Os torcedores não perdoaram:
“Onde já se viu tamanho despautério?? Um galho enooorme, cheio de espinhos num trecho do percurso onde nem galhos nem árvores folhosas existe? Claaaaaro que foi alguém que propositalmente o colocou exatamente onde a águia passaria...”
Os ferimentos na ave foram mais sérios e profundos do que todos haviam imaginado. Por pouco ela não tinha passado desta para melhor.
Mas sob cuidados veterinários ela renasceu das cinzas como uma fênix, mais linda e mais forte e com a convicção de que ela estava no caminho certo. Ela não era de desistir fácil.
Enquanto a águia esteve fora de combate, os outros animais bem que tentaram levar vantagem sobre a pobre coitada que convalescia, impotente. Só que os torcedores viram que não podiam deixar mais essa “passar batido” e muitos se uniram para torcer ainda mais por ela.
Durante todo o tempo a anta não falava coisa com coisa, o jumento só dava coice para todos os lados, o tucano bicava tudo o que via pela frente e o bicho preguiça, preguiçoso que só ele, só queria saber de conversar e propor medidas descabidas para a competição. O lobo tentava morder até seus aliados e a cobra esperava pacientemente o momento certo para dar o bote.
Quando a corrida entrou na reta final e os competidores estavam alvoraçados com a disputa, já não sabiam mais o que fazer para levar vantagem. Há muito já tinham se esquecido de “dar o seu melhor” e tentavam agora a todo custo denegrir a imagem do adversário e prejudicá-lo como podiam.
Os líderes continuavam na frente e a vitória era só uma questão de tempo para vir para o lado verde da força.
Ao povo, os torcedores, só restava aguardar a derradeira prova final para soltar o grito de “É CAMPEÃO” com os verdadeiros merecedores da vitória.
O resultado não poderia ser diferente da vida, onde só se colhe o que se planta e ser honesto deveria uma virtude obrigatória de todos.

domingo, 2 de setembro de 2018

CEDO DEMAIS

Cedo demais você se foi
E eu ainda não estava pronta
Nem pra falar tchau muito menos adeus
Tudo aconteceu tão rápido que me deixou tonta.

Cedo demais você se foi
E mesmo que, juntas, tivéssemos mil anos vivido
Precisaríamos de muitas outras vidas
Já que teria sido pouco tempo para tanto amor envolvido.

Acreditei o quanto pude
que ainda não estava na hora
Tentei ser forte, mãe, mas não consegui
Quando veio a notícia de que você estava indo embora.

Sei que sua passagem não é o fim
Aliás, é apenas um novo começo
Em um lugar muito mais lindo
Por isso, hoje eu te homenageio e te enalteço
Com todo amor que existe em mim.

Apesar de todas as dores que sou capaz de sentir
De toda saudade que sinto de ti
Tento sair de casa todos os dias
Com meu melhor sorriso
Você me ensinou a importância disto
E dizia ser meu sorriso tão bonito.

Logo você, que sorria com a alma
Que iluminava nossas vidas
Com sua bondade infinita
E nos curava com sua fala calma.

Motivo de festa sua chegada com certeza foi
O céu se alegrou para te receber
Um anjo voltando para casa
Mais uma linda estrela a se acender.

Cedo demais pra mim
Cedo demais para dizer adeus
Cedo demais pros que te amam
Mas no tempo certo de Deus.

Hoje a saudade no peito dia a dia aperta
E nos resta aqui ficar nesta vida incerta
Com a promessa de nos encontrarmos depois
Já que cedo demais você se foi.


*OBS.: Este poema foi escrito para homenagear minha mãe, que desencarnou em Janeiro de 2018.

Insônia


São quatro e onze da manhã e não consigo dormir... 
Na verdade, ainda nem deitei. Sinto-me inquieta e com um misto de sentimentos em meu coração que é difícil explicar até para mim mesma.
Queria poder conversar com você agora... ouvir sua voz...
Não sei o que anda acontecendo comigo quando estamos juntos, mas é como se eu não precisasse me preocupar com mais nada, não precisasse me esconder. Ao seu lado posso ser eu mesma.
E justo você, quem eu mais queria impressionar quando conheci, te mostrar meu melhor lado, minha melhor versão. 
Mas não... o tempo foi passando, fui te conhecendo melhor e relaxei minha postura, dei meu melhor sorriso, mas também fiquei descalça, dancei, provavelmente fiquei descabelada, cantei com uma voz completamente desafinada... fui eu mesma e não me importei. Queria que você me enxergasse como eu realmente sou, simplesmente uma mulher, que ainda se sente uma garota, sem rótulos, que tem sonhos e muita vontade de viver.
Irônico isto, não é mesmo?
Simplesmente alguém que já se entregou verdadeiramente a um "amor" e que sofreu todas as desilusões que poderia suportar. E mesmo depois de toda dor, com o coração em pedaços, se refez e decidiu que não deixaria de acreditar que em algum lugar deste vasto mundo, existe um outro ser humano buscando alguém com a mesma essência e que merece todo amor dentro deste coração machucado, mas que quer voltar a bater por alguém que o mereça. 
E aqui estou eu... madrugada a dentro, com a mente cheia de lembranças dos últimos meses, quando você apareceu na minha vida. Depois de uma perda tão grande, de tanto sofrimento, veio um acalento em forma de homem.
Eu me encantei, a verdade é essa... Não por sua beleza exterior, ou seu sorriso ou mesmo seus olhos (que ainda não consegui definir que cor é, mas que são os olhos mais lindos e expressivos que já vi). Ou pelo menos, não só por isso. Mas me encantei por sua postura perante a vida, por sua maneira de ver o mundo. Aquela essência que busco, encontrei em você. Um raciocínio e uma mente brilhantes e que se assemelha muito com a minha e que me fascina completamente.
Confesso que aos poucos fui descobrindo qualidades que hoje me saltam aos olhos, esses mesmos olhos que eu gostaria de lhe emprestar para você se ver como eu te vejo. Enxergo um mistério em você, que me dá vontade decifrar...
Bobo, clichê ou brega tudo isso, você deve estar pensando....
Mas isto é o que eu carrego comigo, o que eu guardo dentro do meu coração e considero meu maior tesouro.
Intenso demais? Talvez... mas uma coisa te garanto: completamente verdadeiro!
Pode parecer loucura da minha cabeça, mas hoje, quando estamos perto um do outro, me sinto aquecida pelo seu olhar; um olhar tão intenso que só de lembrar me dá vontade sorrir. É como se você me olhasse e visse, além do meu corpo, minha alma.
As poucas vezes que pude te tocar, tive vontade de me demorar em sua pele, vontade de fazer carinho, massagem... e quando senti o toque de sua mão na minha, senti uma firmeza, mas ao mesmo tempo uma maciez que, tenho certeza, me provocaria arrepios.
Uma pena eu ainda não ter sentido o teu cheiro. As poucas vezes que nos abraçamos, abraços tímidos e rápidos, tive vergonha de me demorar em seus braços a ponto de conhecer seu perfume. Logo eu, fã de abraços demorados.... daqueles que curam até a alma.
De você quero carinho, beijo, abraço, colo, consolo... e quero retribuir tudo isso.... ainda bem que pelo menos querer e sonhar me é permitido, né... rsrsrs
Se ainda não consegui sentir seu cheiro, quem dirá o gosto do seu beijo.... Ahhhh... esse sim eu fantasio...
 Confesso que tive algumas oportunidades para chegar mais perto, tomar iniciativa, tentar roubar um beijo, mas cadê a coragem? Crio em minha mente mil e um diálogos e situações onde as coisas acontecem e dão certo e a reciprocidade está presente. Mas a realidade é diferente... 
Queria poder te dizer muito mais do que já disse, mas o medo não me deixa. Medo de parecer boba, iludida e o pior, medo de não ser recíproco. Até tentei conversar. Apesar de estar tremendo de nervoso, fiz o que nunca na minha vida eu tinha feito: me declarei. Naquele momento a coragem veio não sei de onde, mas diante do seu silêncio ela passou... E esperei um retorno, que não veio. Nem um sim, nem um não. O corpo, o olhar e as atitudes me dizem sim, mas o silêncio me diz não. E minha bagunça mental/sentimental continua.
Medo de dar certo? De dar errado? Todos temos, mas só saberemos a resposta para essas perguntas se dermos a chance de acontecer...
E se acontecer e der certo? Maravilhoso! Vamos perceber o quando poderíamos já estar sendo felizes juntos. e vamos aproveitar cada minuto dali em diante para curtir a cia um do outro.
E se acontecer e der errado? Uma pena, mas pelo menos teremos tentado...
Aí só nos restará cantar a música do Lulu Santos:
"E se amanhã não for nada disto, caberá só a mim esquecer (e eu vou sobreviver). O que eu ganho e o que eu perco, ninguém precisa saber."
E aí, você tem medo de que?

terça-feira, 26 de junho de 2018

Para o amor da minha vida (seja lá quem for...)




Quando nos encontrarmos, apresente -se... não tenha medo de ser feliz.
Pode ser que o destino só está esperando a sua coragem de me dizer um oi mais especial para mostrar a nós dois que podemos ser felizes.
E quando eu retribuir o seu oi com o meu melhor sorriso (porque eu assim o farei), você saberá que sou eu quem você estava esperando.

Da próxima ver que nos encontrarmos, olhe nos meus olhos por mais de sete segundos... quem sabe assim você me reconheça como aquela que você sempre esperou, aquela que você sabe que vale a pena.

Sei que você já passou por mim; às vezes já até conversamos. A vida é caprichosa... pode ser que já nos esbarramos por aí, mas provavelmente não era nem a hora nem o lugar certo.
Quem sabe, na próxima, estando os dois mais maduros, nós nos reconheçamos no primeiro olhar??.....

Da próxima vez que me ver, me abrace sem pressa... estou precisando desse carinho. A vida tem andado difícil, sabe, e um abraço carinhoso e apertado ameniza os males, principalmente os do coração.

Venho com uma bagagem emocional bem grande, já sofri um bocado, não vou mentir... me entreguei para alguém que não deu o devido valor e te falo que me entregar de corpo e alma novamente não será fácil, mas se você tiver calma e paciência, prometo ser a melhor parceira que você um dia sonhou em ter. Serei calmaria quando você precisar e serei intensa nos momentos certos.

Sei que minha intensidade pode assustar, mas só se você não estiver disposto a ser intenso também.
Se você quiser, pode ser como Cazuza disse... "daqui, até a eternidade".

Posso não ter o corpo mais bonito como muitas modelos e das beldades da TV. Não me encaixo nos moldes estéticos que a sociedade exige como perfeição, por isso, já lhe digo: não sou perfeita.
Aliás, estou longe de ser, mas sou uma mulher com um conteúdo especial, isso eu te garanto, sem medo de parecer prepotente.
E mesmo não sendo nenhuma gostosona com silicone ou botox, no meu corpo você vai encontrar as curvas ideias para te proporcionarem muito prazer.

Não sou loira de olhos azuis, mas no verde dos meus olhos você pode mergulhar sem medo. Eles são da cor do oceano e assim como eu, eles não são rasos nem superficiais.... se você olhar com atenção, verá profundidade.

Não gosto de ficar com o coração vazio... não vim a este mundo para ficar só. A vida é curta demais para não espalharmos amor por onde formos.
Mas não sei ser e ter alguém só por uma noite... por isso ainda te espero....

Já aprendi a ser feliz sozinha, mas quero ter alguém para dividir minha felicidade.

Cresci minha vida inteira vendo filmes de comédias românticas, lendo livros de romances e acreditando naqueles finais felizes, querendo aquilo para minha vida.
E ainda quero!
Aprendi na ficção o que quero para minha vida e o que almejo é uma vida de muito amor. Aprendi o que quero, como quero ser tratada, mas aprendi também como tratar o homem que me escolher.
Quero ser conquistada, quero ser tratada como rainha e quero ter um rei ao meu lado.
Não entrei nessa onda feminista não... pode chegar e me cortejar, me tratar como princesa....
Sei o meu lugar no mundo e não preciso deixar de me cuidar para mostrar "empoderamento" não.
Amar é bom demais... amar e ser amado... assim como quero ser cuidada e amada por você, amor da minha vida, quero cuidar e amar você também.

Quero que você me prove que os outros são todos iguais e por isso mesmo você vale a pena. E quero ter a oportunidade de te mostrar que sou diferente das outras também...

Quero que você toque violão pra mim (espero que você saiba tocar...rs), quero beijos no pescoço (adoro!), quero abraços demorados, beijos na bochecha (e principalmente na boca!), mãos dadas, carinho no rosto, olho no olho... quero te fazer sorrir com piadas sem graça, quero te fazer cafuné e quero colo.... quero mensagem de bom dia e beijo de boa noite...

Quero que você me escute falar de livros e que você fale das suas coisas peferidas. Quero que você se interesse pelas coisas que eu gosto e que são importantes para mim, assim como eu terei o maior prazer em te acompanhar onde você for.

Quero ouvir "Can't take my eyes of you" e pensar em você e quero que você ouça "Just the way you are" e pense em mim.

Quero que você tenha orgulho de mim assim como eu terei de você.
Quero que você me escolha e decida ficar ao meu lado, mesmo com outras opções para ir...
Quero ouvir "ela é minha" com o mesmo entusiasmo e orgulho que você disser "eu sou dela....

Só quero ser feliz.... só quero te fazer feliz também...
Então me escolha... porque já estou te esperando...

domingo, 4 de março de 2018

Ame enquanto ainda há tempo




O dia ainda estava escuro e a cidade ainda dormia.
As luzes nos postes que iluminavam as ruas ainda estavam acesas e aquele mar de carros que se viam todos os dias deslizando pelo asfalto quente ainda estava nas garagens. As corujas ainda não haviam se recolhido.
Era madrugada.
Faltava muito para que a vida apressada inundasse aquele centro urbano. Restavam ainda algumas horas para que o silêncio reinante da aurora fosse substituído pela sinfonia estridente das buzinas naquela grande metrópole, mas ele já estava acordado. Na verdade, nem tinha dormido. Ou, se o fez, não se deu conta, pois ele acompanhou cada giro do ponteiro do relógio na parede à sua frente. Não conseguira parar de pensar na notícia que recebera na tarde anterior e na fragilidade da vida humana.
Desperto, decidiu que, apesar de ser muito cedo, já era hora de sair da cama. Talvez pela noite mal dormida ou pelos últimos acontecimentos, ou mesmo pela junção de todos esses fatores, ele sentia-se estranho. Uma angústia sufocante apertava-lhe o peito. Resolveu que, pelo menos naquele dia, faria tudo diferente.
Levantou-se sem fazer muito barulho para que sua esposa não acordasse. Antes, porém, ficou sentado por alguns minutos na beira da cama, olhando-a. Lembrou-se de todas as vezes que saiu apressado para ir trabalhar, sem ao menos dar um beijo nela. Queria ter agido diferente...
Como a vida foi generosa comigo, presenteando-me com um anjo em forma de mulher”, pensou. “Ela sempre estivera ao meu lado em todos os momentos difíceis que passei, dando-me força para que eu não desistisse e muitas vezes eu não dei o devido valor que ela merecia.”
Sempre que voltava para casa após um longo e cansativo dia de trabalho, ela o esperava acordada para conversarem e o escutava pacientemente. A esposa sempre tinha um conselho, uma palavra de conforto que o fazia acreditar que não era tão impotente assim. E, poucas horas antes, na noite anterior, não havia sido diferente.
– Meu amor, estamos aqui nesta vida para aprendermos e evoluirmos. Cada um tem a sua missão. Uns terminam mais cedo que os outros. Os que fizeram o bem aqui na Terra e partem primeiro são aqueles que aprenderam mais rápido. Você fez o que estava ao seu alcance. Se mesmo assim ela partiu é porque a missão dela terminou. A vida é assim.
Ele passou a noite inteira pensando naquelas palavras e elas ainda estavam em seu pensamento quando se levantou naquela manhã.
“Mais um dia que se inicia”, pensou. “Ou quem sabe o último...”
Enquanto andava pelo quarto foi inevitável não se lembrar de sua própria trajetória. Em todos os seus anos de formação médica, muitos casos difíceis apareceram. Muitos deles haviam caminhado para desfechos inesperados; tanto positivo quanto negativamente. Perdera alguns pacientes que jurava que se curariam e conseguiu salvar tantos outros que, para a medicina, estavam perdidos. Mas, em todos os casos, dedicara-se de corpo e alma para cumprir o juramento que fizera ainda de beca.
Procurava não se apegar emocionalmente, justamente por saber da fragilidade da vida humana. Muitos até o consideravam frio, distante, mas ele já sofrera demais no início da carreira. Muitas vezes, sentira-se impotente e incapaz e pegou-se chorando diante de diagnósticos irreversíveis. Mas há muitos anos ele não se sentia assim.
Só que naquela manhã, era exatamente aquele sentimento que pulsava dentro dele.
Já no banheiro, abriu a torneira devagar e esperou que a água esquentasse. Quando sentiu que já não lhe queimava, foi chegando aos poucos e a água começou a escorrer pelo seu corpo. Debaixo do chuveiro deixou-se relaxar e passou a sentir o toque da água, clara e límpida em sua pele. Esqueceu do tempo.
Deixou sua mente vagar por um momento e não demorou muito que as inquietações permeassem todos os pensamentos. Perdera sua paciente mais querida no dia anterior e não estava sabendo lidar com aquela notícia. Uma mulher forte e ao mesmo tempo de olhar sereno, que sorria com a alma e transmitia paz com sua presença. Desde a primeira consulta, quando ela cruzara a porta de seu consultório com o resultado dos exames debaixo do braço – já sabendo de seu diagnóstico – e ainda assim com um sorriso pacífico nos lábios, ele sabia que aquele era um ser humano especial.
Ao final do banho, ele fechou a torneira e buscou a toalha que logo o envolveu. A fumaça permeou todo o ambiente. O espelho, embaçado, já não refletia sua imagem, mas bastou um toque naquele objeto gelado e uma face cansada apareceu.
Aquele par de olhos que o olhava através do espelho se perguntava: quem somos nós diante dos desígnios divinos? Seres frágeis e egoístas que nunca estamos prontos para dizer adeus? Não pode também deixar de pensar que, com tanto estudo, tanta evolução e tecnologia, a medicina ainda era falha diante da vida humana. Ou, pelo menos, estava longe de ser cem por cento eficaz se de uma hora para outra, de um dia para o outro, tudo podia mudar. Toda uma condição, um quadro clínico que, até então, estava completamente estável, mudou tanto.
De roupa trocada e com os cabelos ainda molhados, voltou ao quarto e olhou ao redor, observando cada detalhe do cômodo. Prestou atenção na borboleta no canto esquerdo do quadro que ornava a parede. Nunca a vira antes. Olhou para a cama e ficou emocionado. Viu aquele anjo, a mulher que o fazia tão feliz.
Beijou a esposa de uma maneira tão carinhosa que a fez sorrir, mesmo dormindo.
“Eu poderia ter dito mais vezes a ela que a amava.”
Recolheu os sapatos no chão, pegou o relógio de pulso ao lado da cama e saiu.
Já no jardim, sentiu a maciez da grama sob seus pés. Foi até o canteiro de rosas e colheu a mais linda entre todas e sentiu o frescor das flores, embebidas pelo orvalho matinal. Enquanto voltava para dentro de casa, seu cachorro o seguiu, abanando o rabo à procura de carinho. Afagando a cabeça do cachorro que, feliz, lambia freneticamente sua mão, ele percebeu que quase nunca brincava com ele.
“O que eu fiz da minha vida? Porque não aproveitei mais meus dias?”
Deixou a flor sobre a bancada da cozinha, ao lado de um bilhete. Preparou o café e após calçar e pegar as chaves do carro, dirigiu-se à garagem com a maior paciência do mundo, diferentemente das vezes que saía apressado para o trabalho, sem ao menos beijar sua esposa ou acariciar seu amigo de estimação. Colocou as chaves na ignição e virou-a. Esperou que o motor esquentasse e saiu pela rua com destino certo.
Pelo caminho, observou uma cidade diferente. Diferente daquela que, na pressa do dia a dia ele nunca havia visto. Nesta nova cidade havia flores, cores e cheiro. Era uma cidade bonita, cheia de belezas que ele nunca antes admirara.
“Será que era a cidade que estava diferente ou era ele mesmo que mudara?”
Perder um paciente não é fácil para médico nenhum, mas a morte prematura de sua paciente, aos 58 anos, o abalara profundamente. Fizera-o enxergar a vida de uma maneira até então não percebida.
Diferente da maioria de seus outros pacientes que, perguntados como estavam, como tinham passado, ela nunca reclamava, nunca lamentava absolutamente nada. Ela era tão positiva, tão cheia de vontade de viver, que seu tratamento refletia sua tranquilidade.
A cada consulta, a cada conversa, mesmo depois de uma sessão do doloroso tratamento, a serenidade não abandonava seus olhar e ela tinha sempre uma palavra de fé para dizer ao médico. E ele procurava sempre escutá-la com a máxima de atenção, sem pressa para terminar a consulta, pois saía de cada encontro com a paciente mais fortalecido e em paz. Era como se, no fundo, ela estivesse ciente de sua missão aqui na Terra.
Em meio a todos esses pensamentos, ele rumou até a região sul da cidade, no alto da montanha que terminava no desfiladeiro; ponto mais alto de onde se avistava o mar. No local exato parou o carro e desceu.
O dia começava a nascer. O céu de tom rosa-azulado servia de pano de fundo para os primeiro raios de sol que surgiam no horizonte. Ventava forte.
Lá em baixo, dava para avistar as ondas baterem valentemente contra as rochas. Cenário perigoso, mas ao mesmo tempo fascinante.
“Uma queda daqui de cima seria fatal”, concordou um tanto pensativo.
Andou mais um pouco para o lado e sentou-se numa grande pedra, debaixo de uma linda árvore. O vento uivava e cobria o chão com um tapete majestoso e multicolor feito pelas flores que iam caindo numa dança lenta e hipnotizante. Durante alguns minutos aquele homem se perdeu em seus pensamentos, inebriado pela divindade daquele momento. Lembrou-se da última frase que sua paciente lhe dissera, em sua última consulta, antes de cruzar a porta sem saber que seria a última vez:
– Aproveite cada minuto de seu dia. Diga “eu te amo” às pessoas que são importantes na sua vida e viva plenamente.
“Por quê?”, era a pergunta que piscava sem parar em sua mente, como um letreiro de neon. A cada mês passado, a cada novo exame realizado para avaliar o estado de saude da paciente, os resultados mostravam a tão esperada melhora. Tudo caminhava bem. Ele, como médico, estava satisfeito por ter escolhido um tratamento que se mostrava eficaz. Estava esperançoso, assim como as filhas de sua querida paciente estavam.
Infelizmente hoje ele via que não estava em suas mãos o pode de curá-la. Ele esgotara todas as tentativas de tratamento e mesmo assim não havia sido suficiente. Era como se o destino estivesse lhe dizendo: “esta missão chegou ao fim.” Duro demais pensar assim, doloroso demais aceitar, mas não havia outra maneira. O pouco de consolo que havia naquela situação toda era o fato de, apesar de conhecê-la há pouco tempo, ele sabia que aquela mulher tinha cumprido com perfeição esta missão. Reconheceu que diante dele passou uma grande mulher, um grande espírito de luz, evoluído e iluminado e que o privilegiado era ele por ter aprendido com ela um pouco mais sobre a vida.
Extasiado e decidido, levantou e caminhou até a beirada do penhasco. Seus pés postaram-se na ponta da última pedra do desfiladeiro. Mais um passo à frente e não teria volta.
O vento soprava cada vez mais forte. No céu, o tom rosa-azulado dava agora lugar a um azul anil, forte, vibrante, que encabulava até mesmo as nuvens.
Ele abriu os braços, fechou os olhos e respirou fundo. Sentiu a força do vento e Daquele ser divino que rege nossas vidas.
“Obrigado Deus, por poder aproveitar cada momento da minha vida. Agradeço por ter me dado a oportunidade de conhecer e cuidar da dona Julieta; ela foi uma professora e tanto. Aprendi a lição e a partir de hoje viverei cada dia como se fosse o último. Cuide bem dela Não os decepcionarei.”
Ele, então, abriu os olhos, admirou o nascer do sol e virou-se para ir embora. Colocou a mão no bolso, pegou o celular e discou.
– Alô, amor, bom dia. Já estou indo para o trabalho. Preparei seu café, está na cozinha. Eu amo muito você.

Fim.